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Editorial - Um mundo em chiaroescuro

“Il vecchio mondo sta morendo. Quello nuovo tarda a comparire. E in questo chiaroscuro nascono i mostri.”


“ O velho mundo está a morrer. O novo tarda a surgir. E neste chiaroscuro nascem monstros.”


- Antonio Gramsci.


O chiaroescuro – claro-escuro ou luz-sombra – é uma técnica com origem na pintura renascentista que coloca a luz no centro da obra, através de fortes contrastes que definem o espaço e modelam a representação.




Diariamente, um qualquer noticiário irrompe, alarmado, o quotidiano do comum para proclamar a emergência de uma qualquer excecionalidade internacional ou nacional, comummente designada de crise. Hoje, constantemente presentes, as notícias sobre crises aumentam, construindo no imaginário coletivo um emaranhado intelectual, que geralmente camufla os verdadeiros problemas da sociedade.


Num momento caracterizado por um oceano informativo omnipresente, qualquer caso ou acontecimento menor rapidamente ganha o estatuto de crise. O mundo construído na Idade da Razão parece progressivamente difuso e esgotado, banhado numa intangibilidade crónica, suplantado estruturalmente pela sensação permanente de crise. O edifício do progresso colapsa lentamente sobre as ruínas do futuro, enquanto o quotidiano se centra na banalização do termo crise, produzindo um apaziguamento da sociedade perante desafios como a crise climática, da habitação, da saúde mental e do trabalho.


Tendo em conta as crises mencionadas, será a nossa geração afetada por desafios mais complexos? O passado ergue na memória uma fortaleza que cada geração recorda tacitamente, selecionando episódios particulares para encenar o presente. A encenação do hoje convida cada geração a recordar as dificuldades do antigamente, bocejando um filho, no meu tempo era mais difícil. Indiscutíveis são as privações materiais que afetaram uma geração. Recorrentemente, a evocação das mazelas dum passado qualquer surge enquanto espada que procura aplacar as feridas do presente, procurando negar uma estranha sensação de crise eterna que parece permear a humanidade.


Na nossa consciência coletiva, tendemos a romantizar o passado, considerando-o como uma era de tempos mais simples, livre das complexidades que aparentemente nos envolvem hoje. No entanto, surge um paradoxo quando observamos como esses mesmos indivíduos, que afirmam ter superado obstáculos insuperáveis, paradoxalmente culpam “os mais novos” pelas crises que enfrentamos. Esta contradição desconcertante leva-nos a questionar a autenticidade do cenário de crise em que nos encontramos. Perante uma crise quase auto infligida, uma sociedade autofágica que permanece na certeza da sua auto destruição ambiental e social perante a incerteza de um possível futuro económica e ecologicamente mais justo.


A revista A Salto pretende justamente abordar a temática da crise para entender os verdadeiros desafios que permeiam a contemporaneidade, desvendando a complexidade da realidade no contexto social caracterizado pela difusão de informação e multiplicidade do pânico social.



 

Valentin-Maria, x akt metavision, 1985. Centre Pompidou, MNAM-CCI

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