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Lady Bird (2017) - Redefinindo a adolescência

Em todos os filmes sobre a adolescência, o foco são os excessos: álcool, drogas, festas, sexo.

Numa fase tão confusa da vida, ver que a nossa experiência pessoal não é retratada nos típicos filmes de adolescentes - com as cheerleaders a fazer bullying à rapariga de óculos, os namorados atletas a dominar a escola, o clube dos “nerds” a fazer os TPC aos populares, as pessoas do teatro ou da banda, e festas caseiras que fogem ao controlo todas as semanas - acaba por dar a entender que não há um verdadeiro proveito da adolescência. A verdade é que esta é uma visão, por um lado, bastante americanizada e, por outro, extremamente redutora. Adolescentes não se dividem em quatro ou cinco categorias, mas todes partilham uma coisa: procuram saber quem são e qual o seu lugar no mundo. Desta forma, Lady Bird surge como uma lufada de ar fresco.


O filme começa com Lady Bird (Saoirse Ronan) a perguntar à mãe (Laurie Metcalf) se parece que é de Sacramento, uma pequena cidade na California, demonstrando desde logo a sua falta de identificação com as suas origens. Rapidamente escala uma discussão entre as duas acerca do futuro (e, de certa forma, do temperamento) da jovem, que leva a que esta se atire de um carro em andamento. Estas primeiras cenas marcam desde o início os antecedentes da relação entre mãe e filha, as suas semelhanças e as suas principais divergências. Greta Gerwig (realizadora e roteirista) acrescenta que “elas são da mesma altura e têm o mesmo corte de cabelo para que, quando estão de perfil, haja a ideia de que são duas faces da mesma moeda”, e por detrás destas personalidades intensas e das discussões há imenso amor (Film4, 2018).


Um olhar mais atento pode identificar alguns paralelismos entre a narrativa de Lady Bird e a realizadora, mas esta garante que para além do seu estilo artsy e da sua cidade natal, elas não têm muitas semelhanças. No entanto, consegue afirmar que, em retrospetiva, também foi ingrata com Sacramento (CBS Sunday Morning, 2018). Para tal, a cinematografia é marcada pela por uma plenitude e beleza quase acidental, numa tentativa de “deixar as coisas serem bonitas como são e perceber o que é bom acerca delas tal como são” (Film4, 2018).


Ao longo do filme, Lady Bird junta-se ao grupo de teatro, conhece Danny (Lucas Hedges), de uma família rica e católica, com quem começa a namorar – o que resulta no seu primeiro desgosto. Depois conhece Kyle (Timothée Chalamet), que desperta em Lady Bird uma outra fase de rebeldia, começando a fazer amizades com a rapariga popular da escola, a ignorar a sua melhor amiga, a mentir sobre quem é para se inserir neste novo grupo. A verdade é que todas estas novas experiências e mentiras foram um balde de água fria para a personagem de Ronan, trazendo apenas tristeza e frustração.

Apesar de estes pequenos detalhes parecerem meramente secundários, a realizadora pretendeu dar-lhes destaque, porque há imensas experiências que parecem promissoras, que são exploradas e captadas, sendo bem-sucedidas ou não, e que marcam adolescência. Há imensos plots e inbetweens na vida de todas as pessoas, especialmente nesse período, aos quais vale a pena prestar alguma atenção, pois, mais tarde, podem vir a definir o tipo de adulto que vai surgir. Gerwig teve a preocupação de destacar a beleza desses momentos: “Todos conhecemos os grandes momentos, mas quais são as pequenas coisas que nos levam a esses grandes momentos?” (Film4, 2018).


O baile de finalistas acontece e acaba por ser uma experiência transformadora, no sentido em que a protagonista finalmente compreende uma parte de si e reconcilia-se com Julie, a sua melhor amiga. Mas, mesmo assim, a cena em que Lady Bird está a escolher um vestido com a mãe acaba por roubar as atenções. Num tom extremamente emotivo, mas meio dissolvido na ação, são proferidas as palavras que resumem o que é ser adolescente:


[Lady Bird]

“I just want you to like me”


[Mom]

“Of course I love you”


[LB]

“But do you like me?"


[Mom]

“I want you to be the very best version of yourself as you can be.”


[Lady Bird]

“What if this is the best version?”



Entretanto, Lady Bird é aceite na Columbia University em Nova Iorque, o que se torna noutro ponto de viragem na sua vida, chegando mesmo a adotar novamente o nome Christine.

Este final complementar é brilhante, pois, quando no início a jovem queria distanciar-se de Sacramento e começa uma discussão com a mãe, no fim reconhece a beleza da cidade numa mensagem bastante sentimental que envia à mãe como um perdão. Ainda, há sempre uma abertura para o espectador imaginar o que pode ter acontecido antes, mas também o que poderá vir a acontecer na vida de Lady Bird.


As experiências não acabam quando a tela fica preta ou quando não há ninguém a assistir; ainda há coisas a viver, e é esta a mensagem que esta obra transmite, assim como a possibilidade de errar e evoluir enquanto pessoa, algo que tão é característico desta fase da vida.







Referências bibliográficas:


CBS Sunday Morning (Director). (2018, janeiro 7). Greta Gerwig on «Lady Bird». https://www.youtube.com/watch?v=H8H_s8sb-q4


Film4 (Director). (2018, fevereiro 11). Saoirse Ronan and Greta Gerwig talk Lady Bird | Film4 Interview Special. https://www.youtube.com/watch?v=iODwgFDvdC0




 

Sobre a autora:



Marta Gil, 21 anos. Coimbra.

Estudante de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra.

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