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Quando as tensões políticas ultrapassam a barreira das competições desportivas

Kathy Switzer durante a maratona de Boston em 1967. Getty Images
Kathy Switzer durante a maratona de Boston em 1967. Getty Images















Apesar de os eventos desportivos serem uma boa base de entretenimento, usados para abstrair as mentes dos espectadores (e participantes) do que se passa no mundo, as tensões políticas estão sempre presentes, fortemente enraizadas na representação das nações e na competição entre elas.


Desde o início do século XX que é possível ver eventos desportivos, tais como os Jogos Olímpicos, como palcos de protestos políticos e de tensões internacionais (e mesmo nacionais). Em 1906, Peter O’Connor, atleta irlandês, usou a sua vitória no Triplo Salto nos Jogos Intercalares para protestar contra o facto de estar a competir em representação do Reino Unido, subindo à haste para exibir a bandeira irlandesa. Nos Jogos imediatamente após a Primeira Guerra Mundial, os países derrotados não foram convidados a participar e, em 1936, em Berlim, vários países (incluindo os EUA) ameaçaram boicotar a competição devido à sua instrumentalização enquanto mecanismo de propaganda nazi. Os Jogos de 1936 tiveram uma importância extrema, uma vez que Jesse Owens, atleta americano negro, foi o símbolo de muitas divisões, entre as quais a segregação racial nos EUA. O seu domínio no Atletismo levou à vergonha dos atletas germânicos sob Hitler, que, eventualmente, foram enviados para morrer na frente de batalha da Segunda Grande Guerra (nomeadamente o Vice-Campeão Luz Long, que criou amizade com o seu adversário). Em plena Guerra Fria, Jimmy Carter iniciou uma campanha para boicotar os Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980, como protesto à invasão russa do Afeganistão, agregando o apoio de sessenta países. Quinze atletas desfilaram com a bandeira olímpica, em detrimento da bandeira nacional. Como resposta, quatro anos depois, a União Soviética liderou o boicote aos Jogos em Los Angeles, nos quais as nações do Pacto de Varsóvia, Cuba e a Alemanha Oriental se recusaram a participar.


Já no século XXI, quase imediatamente após a invasão russa da Ucrânia, o Comité Olímpico Internacional apelou ao cancelamento ou realocamento de todos os eventos desportivos planeados na Rússia e na Bielorrúsia, e, a 28 de fevereiro de 2022, anunciou a recomendação para que a Federação Internacional de Desporto e os organizadores de eventos desportivos não convidassem ou permitissem a participação de atletas e oficiais russos e bielorrussos nas competições. Se tal não fosse possível, estes teriam de competir sob um status neutro. Este pedido foi feito, supostamente, não como uma sanção, mas como uma medida de proteção e segurança para com todos, inclusive para com os atletas representantes desses países, assegurando uma “neutralidade política”. 


Como resultado, no Mundial de Futebol Masculino no Qatar de 2022 e na mesma prova da secção feminina na Austrália em 2023, as equipas nacionais de futebol russas e bielorrussas foram banidas das qualificações. Tal aconteceu também no Campeonato Mundial de Hóquei masculino na Finlândia, no Campeonato Mundial de Natação em Budapeste e no Campeonato Mundial de Atletismo em Oregon. A Final da Liga dos Campeões, que tinha sido planeada para São Petersburgo, teve lugar em Paris, e o Campeonato Mundial de Natação de Pequeno Curso passou de Kazan para Melbourne. Em 2022, os atletas russos foram imediatamente impactados com o peso de representar uma nação agressora. Nikolai Gryazin (russo) e o seu copiloto, Konstantin Alexandrov (bielorrusso), tiveram de competir com um status neutro em 2022 e 2023, acabando por passar a competir com uma licença búlgara.  


No entanto, e apesar da exclusão da Rússia de algumas das mais importantes competições mundiais, é necessário notar as incongruências praticadas pelo Comité Olímpico Internacional ao incluir: potências militares agressoras como a Coreia do Norte (Democratic People’s Republic of Korea) e Israel, países cujos líderes têm acusações de crimes contra a humanidade e de deslocamento forçado, respetivamente, pelo Tribunal Internacional de Justiça; países que enfrentam tensões internacionais tais como a Arménia e o Azerbeijão; ou o Qatar que, em 2022 sofreu grandes repercussões devido às condições de trabalho mortais que são dadas aos imigrantes, juntamente com a lista de países que diariamente põe em risco os direitos humanos. Igualmente,  importa realçar que atletas israelitas se queixaram de ter recebido ameaças em Paris, fazendo com que a sua segurança tivesse sido posta em causa tal como o Comité Olímpico acreditava que iria acontecer com os atletas russos. Assim sendo, por que razão não foram afastados sob os mesmos pretextos usados em 2022?


Então, apesar de todas as tentativas dos dirigentes desportivos, seja do Comité Olímpico Internacional ou da FIA, no sentido criar um espaço neutro e desprovido de conflitos políticos, a verdade é que, quando se representa um país numa competição, há apenas duas hipóteses. Ou o atleta representa a totalidade do país, com todos os seus pontos positivos e negativos; ou a plataforma que se cria tem de ser usada para espelhar aos olhos da comunidade internacional o que tem de ser mudado. Isto porque, como afirma Aristóteles, o homem é um animal político.





Referências Bibliográficas:


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Israel’s Olympic team says some athletes have received threats in Paris. (2024, agosto 7). PBS News. https://www.pbs.org/newshour/world/israels-olympic-team-says-some-athletes-have-received-threats-in-paris


Jogos Olímpicos: A amizade de estrelas do atletismo que desafiou o nazismo. (2024, julho 19). BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckrgmdgl49vo


Paris 2024 Olympics: Full list of country names and codes for IOC National Olympic Committees. (2024, julho 24). https://www.olympics.com/en/news/paris-2024-olympics-full-list-ioc-national-olympic-committee-codes


Republic of Korea | International Criminal Court. (sem data). Obtido 8 de setembro de 2025, de https://www.icc-cpi.int/korea


Russian pilot Gryazin awaits authorization from the federation to represent Bulgaria. (2023, dezembro 27). Athletistic. https://athletistic.com/racing/460557.html


Shehrazade. (2025, junho 30). Palestine/Israel: Israel must immediately stop its criminal forcible displacement in Gaza | ICJ. International Commission of Jurists. https://www.icj.org/palestine-israel-israel-must-immediately-stop-its-criminal-forcible-displacement-in-gaza/


The Politics of Aristotle, trans. into English with introduction, marginal analysis, essays, notes and indices by B. Jowett. Oxford, Clarendon Press, 1885. 2 vols. Vol. 1.


Which sports have banned Russia and Belarus? – DW – 07/17/2022. (2022, julho 17). Dw.Com. https://www.dw.com/en/war-in-ukraine-which-sports-have-banned-athletes-from-russia-and-belarus/a-62503336


World Cup finals: Why is Qatar 2022 controversial? (2022, junho 12). BBC Sport. https://www.bbc.com/sport/football/61635340




Sobre a autora:


Marta Gil


24 anos. Coimbra.

Licenciada em Relações Internacionais na Universidade de Coimbra.






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Revista A Salto, 2021

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