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Rendas em Portugal - Os universitários não têm onde morar

Introdução


A educação sempre foi um fator de peso nas grandes sociedades. Pessoas formadas levam a sociedades com mais conhecimento e por consequência a um maior desenvolvimento. Além disso, hoje em dia, o mercado de trabalho exige trabalhadores com formação académica universitária. Apesar de não ser necessário ingressar no ensino superior para se poder trabalhar, este feito permite acesso a outro tipo de empregos com melhores progressões de carreira, ou a um trabalho com um salário base mais alto.

Num mundo cada vez mais bem formado, há outros aspetos que fazem diferenciar os alunos mas, neste momento, a base que as grandes empresas têm é quase sempre a conclusão do ensino superior.



Portugal e a evolução do mundo estudantil


Com a educação a ter um papel tão central na sociedade de hoje em dia, é importante analisar o estado do nosso país nesta temática.

Em 2016, um terço dos estudantes do ensino superior estudou para obter o mestrado (Archive, 2021), o que demonstra que os jovens portugueses procuram seguir um caminho universitário longo (pelo menos 5 anos).

Num país onde a educação é uma prioridade, com a escolaridade obrigatória até ao 12º ano, houve, em 2022, 433 217 alunos matriculados no ensino superior (Alunos matriculados no ensino superior, 2022). Este é um número histórico de alunos matriculados, que tem vindo a ter um crescimento constante desde 2015.(Tabela 1) (Alunos matriculados no ensino superior, 2022) Mesmo assim, 11,6% (49 806) dos colocados não se matricularam, sendo o maior motivo para isso a diminuição de quartos disponíveis e o seu aumento de preço(Group, 2022). Quase cinquenta mil alunos perderam a oportunidade de ingressar no ensino superior, fazendo com que o número de matriculados aumentasse para cerca de 480 000 alunos.


Mesmo assim, ao analisarmos as faixas etárias da população, podemos observar um crescimento da taxa de escolaridade no ensino superior ao longo do tempo (Tabelas 2 e 3). A faixa etária dos 25-29 anos vem comprovar este fenómeno, com cada vez mais população jovem a seguir a vida académica longa. O número de pessoas com o ensino superior superou os 50% no 1º trimestre de 2021. (Tabela 2) (Taxa de escolaridade do ensino superior mantêm-se acima da meta europeia | DGES, 2021). Na faixa etária dos 30-34 anos, foi possível atingir os 45% de escolaridade no 3º trimestre de 2021, reforçando a tendência claramente visível na tabela 3, de que a taxa de escolaridade do ensino superior está a crescer a um ritmo elevado desde 2018, com as projeções a indicar que entre 2024 e 2025, 50% da população terá ingressado no ensino superior.(Taxa de escolaridade do ensino superior mantêm-se acima da meta europeia | DGES, 2021)

Com estes dados analisados é fácil perceber que o número de diplomados também tem vindo a aumentar, atingindo o valor histórico em 20/21, com um número de 90 920 diplomas (Principais Resultados Diplomados | Raides21 | 2020/2021, 2021), mais 5 121 diplomas que no ano anterior. Tem se verificado uma subida nos últimos 6 anos (Tabela 4), e a tendência é que continue a subir (Taxa de escolaridade do ensino superior mantêm-se acima da meta europeia | DGES, 2021).


Podemos, portanto, concluir que há cada vez mais jovens a seguir o caminho académico. No entanto estes jovens não podem ter um trabalho fixo ao mesmo tempo que estudam. Assim muitos deles optam por part-times. Todavia, estes estão interligados, muitas vezes, ao salário mínimo, pois o jovens que trabalham, aproximadamente 20 horas semanais, irão ganhar metade do salário que uma pessoa a tempo inteiro receberia. O problema é que muito destes trabalhos, mesmo a tempo inteiro, só têm direito ao salário mínimo e, portanto, estes jovens só têm acesso a metade do salário mínimo.

Assim o cenário para um jovem neste momento é o seguinte: atualmente o salário mínimo é de 705€ por mês (PORDATA - Ambiente de Consulta, 2022). Trabalhando 20 horas semanais, o estudante tem direito a apenas metade desse valor, ou seja, a 352,5€. No entanto, têm descontos para fazer. Apesar de não descontar para o IRS, têm de descontar 11% para a Segurança Social (Tabelas de Retenção do IRS, 2022). Assim um estudante a trabalhar o máximo de horas num part-time tem disponível ao final do mês apenas 313,73€.



Tabela 1-Alunos matriculados no ensino superior: total






Alunos matriculados no ensino superior: total e por sexo Fontes de Dados: DGEEC/ME-MCTES - DIMAS/RAIDES Fonte: PORDATA Última actualização: 2022-10-03





Tabela 2








Fonte: INE, Inquérito ao Emprego, DGEEC, Eurostat





Tabela 3







Fonte: MCTES, elaborado a partir da informação da DGEEC, INE e Eurostat


Tabela 4- Diplomados em ciclos de estudos de ensino superior – 1996/97 a 2019/20















A evolução do mercado imobiliário e das rendas


Contextualização e evolução até 2020:


O mercado imobiliário em Portugal tem tido uma evolução irregular. Após a crise imobiliária de 2008 até 2013, houve uma diminuição dos preços de 4%. No entanto, no período de recuperação pós 2013, 2014-2020, registou-se um aumento dos preços de 6%. Durante o período Covid-19, apesar da diminuição do PIB, os preços das casas continuaram a subir (O Mercado Imobiliário em Portugal, 2022).

Olhando agora para o investimento residencial, houve uma diminuição de 2008 a 2013, num valor de 12% ao ano. A partir de 2014, (período de recuperação), houve uma melhoria de 5% ao ano até 2020 (O Mercado Imobiliário em Portugal, 2022).

Importante, também referir o “Efeito Contágio”. Este fenómeno acontece principalmente nas Áreas Urbanas de Lisboa e do Porto e consiste em: se há uma subida dos preços das habitações em Lisboa, isto é, no grande centro metropolitano, as áreas adjacentes irão por consequência também aumentar os preços, mesmo que a causa que levou ao aumento do preço em Lisboa não se aplique a, por exemplo, Vila Franca de Xira. Este fenómeno aconteceu bastante no período entre 2016 e 2019 (O Mercado Imobiliário em Portugal, 2022).

Outro fator que influencia o mercado imobiliário é o turismo e o investimento em habitações turísticas, que tem ganho a atenção de muitos investidores, principalmente no nosso país. Este investimento leva a uma diminuição de oferta de casas para arrendamento anual, pois as casas estão a ser utilizadas para o turismo, uma vez que proporciona um retorno maior para o investidor do que o arrendamento permanente à população local. Portugal tem observado este acontecimento a aumentar exponencialmente após 2014 (O Mercado Imobiliário em Portugal, 2022).



Estado do Mercado Imobiliário Português 2021-2022:


Num país onde a inflação homóloga atingiu em Agosto os 9,4% (Zona Euro com inflação de 9,1% em agosto. Portugal está acima da média, 2022), e em Setembro os 9,8% s/d), é fácil entender que o mercado imobiliário vai ter alterações bastantes significativas.

A oferta de quartos para arrendamento está a cair a pique, e o exemplo disso é o facto de, em setembro de 2022, termos assistido a uma quebra de 80% face ao ano anterior, o que é uma grande preocupação para os novos estudantes que querem sair da sua cidade para estudar e, por isso, precisam de um local para morar (Oferta e preços de quartos para arrendar a estudantes — idealista/news, 2022).

A oferta privada, a mais comum em Portugal, disponibilizava, em 2021, quase dez mil quartos. Atualmente, em 2022, passaram a estar disponíveis nem dois mil quartos. Esta redução da oferta na ordem dos 80% é crítico para os estudantes que procuram desesperadamente por um teto (Oferta e preços de quartos para arrendar a estudantes — idealista/news, 2022).

O Observatório fez uma análise em 20 cidades e em todas elas a oferta diminuiu, uma prova de que este fenómeno é um problema nacional em grande escala. A cidade que registou uma maior descida foi Lisboa, com uma redução de oferta de 79% de quartos para arrendar, seguida de Aveiro com uma quebra de 75% e Faro e Portalegre com 73%. Destas cidades as que registaram uma diminuição menos acentuada foi Coimbra com uma redução de apenas 17%, seguida de Beja com uma queda de 20% e Guarda com 23% (Oferta e preços de quartos para arrendar a estudantes — idealista/news, 2022).

Mas qual o motivo desta redução tão grande? É um conjunto de vários fatores tais como: a inflação, a passagem do arrendamento de quartos para estudantes para turismo de habitação, alojamento local e Airbnb. Arrendar um quarto deixou de ser uma opção apenas para estudantes, uma vez que jovens profissionais, solteiros, divorciados e pessoas com baixos rendimentos terem passado a arrendar quartos em vez de alugar casas. Assim a renovação anual que acontecia sempre que acabava um período letivo deixa de acontecer e a oferta diminui.

Quando há uma diminuição da oferta e um aumento da procura, há um aumento do preço!


A subida das rendas das casas foi observada em todas as 25 sub-regiões de Portugal. As regiões que mais sofreram com esta subida de preço foram a Região Autónoma da Madeira com uma subida de 16% dos preços, Alto Tâmega com 15% e Médio Tejo nos 14% (Arrendar casa ficou 8,6% mais caro — idealista/news, 2022).

Mesmo assim, estamos perante uma grande assimetria no preço das rendas.

As áreas mais caras para arrendar casa são a Área Metropolitana de Lisboa a 9,95€/m2, Algarve a 7,41€/m2, Região Autónoma da Madeira a 7,35€/m2 e a Área Metropolitana do Porto a 7,06€/m2. Por outro lado, temos outras regiões com preços muito menores. Terras de Trás-os-Montes apresenta a renda mais barata a 2,88€/m2, Alto Alentejo a 3,08€/m2 e as sub-regiões Beiras e Serra da Estrela a 3,33€/m2 (Arrendar casa ficou 8,6% mais caro — idealista/news, 2022).


Portugal está num momento crítico no que diz respeito ao preço dos arrendamentos, uma vez que os máximos históricos de preço por m2 estão quase todos a ser batidos em 2022. Das 25 sub-regiões de Portugal apenas duas não têm o seu máximo atingido em 2022. Évora teve o seu valor mais alto em 2020 e a Região Autónoma dos Açores foi em 2021. Todas as restantes estão neste momento com a preço de arrendamento mais alto de sempre (idealista.pt, 11/22).

Neste momento, um quarto no Porto custa em média 324€, enquanto que a média no ano passado era apenas 250€. Assim todos os estudantes que queiram, por exemplo, ir estudar para o Porto irão pagar em média mais 74€ por mês (Oferta e preços de quartos para arrendar a estudantes — idealista/news, 2022). Outro exemplo é em Lisboa, local onde é mais caro arrendar. Um estudante precisa em média de gastar 381€ para ter um quarto na capital (Oferta e preços de quartos para arrendar a estudantes — idealista/news, 2022).

Lembrar que estes preços são valores médios e não têm em conta a qualidade dos quartos. Para um estudante que procure condições condignas, terá muitas vezes de pagar mais do que a média para poder obter um quarto.



Conclusão


Podemos concluir que, neste momento, o tópico do alojamento é um problema nacional e urgente, que já está a impedir muitos jovens de poderem continuar os seus estudos e, se nada se alterar, irá ser cada vez mais impeditivo.

Estamos numa situação onde os jovens estão dependentes da situação financeira dos pais para saberem se podem ou não ir para a faculdade. Um estudante que trabalhe em part-time ganha 313€, com esse valor, não será possível adquirir um alojamento nem no Porto nem em Lisboa. Reforçar que ainda falta considerar as despesas de alimentação, transporte e todo o material necessário para as aulas.









Referências Bibliográficas:




Group, G. M. (2022, novembro 28). Ensino Superior. Menos quartos, mais caros e muitos estão ocupados por quem já acabou curso. https://www.dn.pt/sociedade/ensino-superior-menos-quartos-mais-caros-e-muitos-estao-ocupados-por-quem-ja-acabou-curso--15218662.html


idealista.pt. (11/22). Evolução do preço das casas em arrendamento, Portugal. idealista. https://www.idealista.pt/media/relatorios-preco-habitacao/arrendamento/


O Mercado Imobiliário em Portugal. (2022). Fundação Francisco Manuel dos Santos. https://www.ffms.pt/pt-pt/estudos/o-mercado-imobiliario-em-portugal


Oferta e preços de quartos para arrendar a estudantes—Idealista/news. (2022, setembro 15). https://www.idealista.pt/news/imobiliario/habitacao/2022/09/15/54025-quartos-para-estudantes-precos-mais-altos-e-menos-oferta-porque


PORDATA - Ambiente de Consulta. (2022). https://www.pordata.pt/db/portugal/ambiente+de+consulta/tabela


Portugal, R. e T. de. (sem data). Inflação em Portugal nos 9,8% em setembro. Inflação em Portugal nos 9,8% em setembro. Obtido 11 de dezembro de 2022, de https://www.rtp.pt/noticias/economia/inflacao-em-portugal-nos-98-em-setembro_v1440831


Principais Resultados Diplomados | Raides21 | 2020/2021, (2021). https://www.dgeec.mec.pt/np4/EstatDiplomados/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=132&fileName=DGEEC_DSEE_DEES_2022_DestaqueRAIDES21_Di.pdf


Taxa de escolaridade do ensino superior mantêm-se acima da meta europeia | DGES. (2021, novembro 11). https://www.dges.gov.pt/pt/noticia/taxa-de-escolaridade-do-ensino-superior-mantem-se-acima-da-meta-europeia





 


Sobre o autor (colaborador regular):


Pedro Miguel Carvalho Homem Santiago, natural de Coimbra.

Estudante de Economia na Faculdade de Economia do Porto.

Participou em projetos como o GMC (2022), EYP em Portugal e na Eslovénia (2020) e Erasmus+ na Alemanha (2019).



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