Ucrânia: Crise de refugiados deixa a descoberto uma crise de xenofobia

O eclodir da guerra na Ucrânia originou uma vaga migratória de refugiados que procuram agora proteção na UE face à agressão russa. Milhões de pessoas tentam continuamente cruzar a fronteira com a Polónia, enquanto o mundo observa perplexo como a guerra recai sobre um país europeu.

Num conflito em que todos sofrem por igual com a violência russa, os testemunhos de racismo e xenofobia nas fronteiras ucranianas multiplicam-se. As regras de passagem são simples: mulheres e crianças primeiro; homens brancos depois; negros, árabes, indianos para o fim da fila. As autoridades fronteiriças e soldados ucranianos parecem fazer pouco de quem procura abandonar o país: agora africanos para a esquerda, agora indianos para a direita, agora sentem-se, agora levantem-se (Henriques, 2022). E mesmo os que, entre estes, conseguem chegar à Polónia, não têm entrada no país garantida pelas autoridades polacas.

Mas as manifestações de discriminação vão além do hotspot da guerra, através de relatos jornalísticos insólitos nos media informativos ocidentais. “Isto não é um lugar como o Irão ou o Afeganistão que têm visto conflitos que duram décadas. [Kyiv] é uma cidade relativamente civilizada.”, pode escutar-se na voz de um repórter da CBS News (TRT World, 2022). “É muito emocionante para mim, porque vejo pessoas europeias, de olhos azuis e cabelo loiro a serem mortas.”, disse um comentador convidado da BBC News (TRT World, 2022). É curioso como dezenas de jornalistas e comentadores se mostram chocados com a guerra, não devido à morte e destruição que esta causa, mas pelo facto de ter lugar na Europa, com protagonistas brancos. As vidas dos povos do Sul Global são encaradas como menos valiosas do que as vidas dos ocidentais, e a guerra trivializada.

Esta nova “crise de refugiados” levou a uma resposta do Conselho da UE que permitiu acionar pela primeira vez a Diretiva de Proteção Temporária, para proteger as pessoas deslocadas que fogem da guerra na Ucrânia (Conselho da União Europeia, 2022). Embora este seja um importante avanço na política migratória europeia, que pode salvar muitas vidas, é lamentável que a crise migratória de 2015 não tenha sido considerada urgente o suficiente para acionar esta mesma medida. No espaço de um mês, a UE absorveu prontamente mais de 3,5 milhões de refugiados ucranianos (Comissão Europeia, 2022), enquanto o mesmo esforço não foi possível, em 2015, em socorro dos mais de 1 milhão de refugiados que chegaram à Europa via Itália e Grécia, oriundos de África, do Médio Oriente e da Ásia do Sul (Clayton & Holland, 2015). Em vez disso, a Comissão Europeia criou a Agenda Europeia da Migração, focada, e bem, em criar uma política comum de asilo e uma nova política de migração legal, mas também em reduzir os incentivos à migração irregular, e em reforçar o controlo fronteiriço europeu (Comissão Europeia, 2015). A isto acresce a relutância dos governos da Hungria e da Polónia em contribuir para uma possível resposta conjunta (ainda que precária), ao fecharem as suas fronteiras aos refugiados, em 2015, sendo agora ambos países na linha da frente da ajuda à crise migratória ucraniana.

Esta duplicidade de critérios esconde aquilo que a Europa, e o mundo Ocidental em geral, se recusam admitir. A empatia Ocidental esgota-se perante a diferença do outro, que provém de uma outra origem e que tem uma outra aparência que não a nossa. A crise de refugiados gerada pela guerra da Ucrânia e o modo como esta foi respondida pelas autoridades ucranianas, pelos media, e pela própria UE, em comparação com a crise migratória de 2015, revelam uma crise internacional mais profunda e invisível – uma crise de xenofobia.






Referências bibliográficas


Clayton, J., & Holland, H. (2015, 30 de dezembro). Over one million sea arrivals reach Europe in 2015. Agência de Refugiados das Nações Unidas. Disponível a partir de https://www.unhcr.org/news/latest/2015/12/5683d0b56/million-sea-arrivals-reach-europe-2015.html

Comissão Europeia. (2015, 13 de maio). Comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social Europeu e ao Comité das Regiões: Agenda Europeia da Migração. COM(2015) 240. Disponível a partir de https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:52015DC0240&from=CS

Comissão Europeia. (2022, 23 de março). Ukraine: EU support to help Member States meet the needs of refugees. [Press release]. Disponível a partir de https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/ip_22_1946

Conselho da União Europeia. (2022, 4 de março). Ukraine: Council unanimously introduces temporary protection for persons fleeing the war. [Press release]. Disponível a partir de https://www.consilium.europa.eu/en/press/press-releases/2022/03/04/ukraine-council-introduces-temporary-protection-for-persons-fleeing-the-war/

Henriques, Joana Gorjão. (2022, 2 de março). “Africanos para o fim da fila”: portugueses alvo de racismo ao tentarem fugir da guerra na Ucrânia. Público. Disponível a partir de https://www.publico.pt/2022/03/02/sociedade/noticia/africanos-fim-fila-portugueses-alvo-racismo-tentarem-fugir-guerra-ucrania-1997365

TRT World. (2022, 27 de fevereiro). ‘Biased’ media coverage on Russia-Ukraine tension sparks outrage. [Vídeo]. Youtube. Disponível a partir de https://www.youtube.com/watch?v=XxaESrtO3oQ&ab_channel=TRTWorld




 


Sobre o autor:



Ana Carolina Santos, 20 anos, natural de Coimbra.

Estudante do segundo ano da Licenciatura em Relações Internacionais pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Voluntária do SPEAK Coimbra. Interessada por migrações internacionais e geopolítica europeia e asiática.

Posts recentes

Ver tudo

Quem se interessa por política, independentemente do espectro político, olha para os resultados da última noite eleitoral com curiosidade. Os fenómenos que vimos a acontecer, contrariando qualquer son