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Sem Rumo: a crise de uma geração

Somos constantemente recordados de que a Terra está a arder, de que os ricos estão cada vez mais ricos, de que um teto e um trabalho digno são privilégios e de que o caos económico é apenas o novo normal. Uma sociedade construída sob um sistema que busca ganhos intermináveis mostra agora a sua insustentabilidade e, evidentemente, ameaça quaisquer esperanças de um futuro promissor para a Geração Z. Os jovens assumem um papel de meros espectadores, aguardando não tão ansiosamente pela sua vez de tomar as rédeas e assumir o controlo do seu futuro coletivo. Mas, quando chegar a altura, o que faremos com uma carroça partida, uma estrada esburacada e um cavalo doente?

Os jovens enfrentam agora uma profunda crise de propósito, que gera um questionamento fundamental da própria essência da sua (nossa) existência .


Procura de sentido e Niilismo

O desejo e a busca por significado são partes da condição humana. Historicamente, o trabalho é um dos principais outlets que confere propósito e importância à nossa vida quotidiana. Sucesso e conquistas profissionais garantem um sentimento de autorrealização e de uma marca deixada no mundo.

Viktor Frankl (1946), sobrevivente do Holocausto e fundador da “Logoterapia e Análise Existencial”, escreve: "everything can be taken from a man but one thing: the last of the human freedoms - to choose one's attitude in any given set of circumstances". No entanto, as circunstâncias socioeconómicas e ambientais aparentam ter provocado uma mudança de paradigma. A desilusão dos jovens, em particular para com as estruturas e normas societais tradicionais levou muitos a confrontarem a ideia de que a vida, pelo menos como foi vivida por gerações anteriores, é desprovida de sentido.

Num estudo publicado no The Lancet Planetary Health, 10 000 jovens entre os 15 e 25 anos foram inquiridos sobre questões ambientais e 56% concordaram com a afirmação “A Humanidade está condenada” (Hickman et al., 2021). Quando a realidade que a juventude experiencia está repleta de verdadeiras ameaças existenciais, não é de estranhar que a Geração Z cada vez mais avance em direção a correntes filosóficas como o niilismo de modo a navegar a vida moderna.

Niilismo é essencialmente a crença em nada, isto é, uma perspetiva que afirma que a vida não possui significado ou valor intrínseco (Coombs, 2022). Este conceito é muitas vezes confundido com apatia e pessimismo, ainda que acreditar em nada não seja definitivamente o mesmo que acreditar que o mundo é inerentemente mau. Efetivamente, para um niilista, conceitos como o bem e o mal, são meras construções de moralidade criadas pelo Homem. Deste modo, os sistemas sociais e morais estabelecidos socialmente são questionados e desconstruídos.

À medida que o mundo cai cada vez mais em desordem, esta chamada “crise de propósito” intensifica-se e os jovens enfrentam o desespero e a exaustão de lidar com a dicotomia da negação niilista de propósito e uma simultânea necessidade de procurar significado. O niilismo dos jovens não representa uma derrota face a um desespero existencial, mas o reconhecimento da necessidade de lidar com as verdades cruas da nossa existência.


Desafio ao Vazio

A narrativa predominante entre os jovens é niilista e marcada por uma certa incerteza existencial geral, mas a Geração Z encontra-se numa posição única para desafiar as tendências individualistas capitalistas que marcaram gerações anteriores – a Geração X e Millenial, em particular. Os seus sentimentos de falta de objetivo e significado tendem cada vez mais para uma mudança em direção a uma abordagem mais coletiva e comunitária.

Os jovens estão consideravelmente mais envolvidos em movimentos de ativismo ambiental e justiça social. As redes sociais permitiram a partilha de diversas perspetivas, acesso e mobilização de recursos a uma escala global, promovendo um sentimento de unidade e propósito para além dos ganhos individuais (Carnegie, 2022). Este novo coletivismo opõe-se às conceções de uma sociedade automatizada obcecada com o trabalho e o sucesso pessoal - “Gen Z does not dream of labor” (Nguyen, 2022). É rejeitada a noção de que o significado deriva apenas de conquistas pessoais e profissionais ou aquisições materiais. Em vez disso, procura-se um objetivo através da contribuição para um bem social maior, focando-se em questões como as alterações climáticas, as desigualdades sistémicas e a sensibilização para as problemáticas da saúde mental.

Albert Camus propõe que, mesmo num universo aparentemente absurdo, os seres humanos podem rebelar-se contra o absurdo, criando os seus próprios objetivos e sistemas morais e de valor. Este ato de rebelião implica aceitar a inerente falta de sentido da vida, mas também procurar criar ativamente um novo propósito.

« Vê-se que a afirmação implícita em todo ato de revolta estende-se a algo que transcende o indivíduo, na medida em que o retira de sua suposta solidão, fornecendo-lhe uma razão para agir. [...] Sem dúvida, ele exige para si respeito, mas apenas na medida em que se identifica com uma comunidade natural. [...] Portanto, o indivíduo, não é, por si só, a personificação dos valores que se dispõe a defender. É necessária toda a Humanidade esses valores. Quando se revolta, o Homem identifica-se com outros homens e assim transcende-se no outro, e, desse ponto de vista, a solidariedade humana é metafísica. »

Quando confrontados com um mundo que sistematicamente parece desprovido de significado intrínseco, Camus apela à revolta contra o niilismo, contra o vazio, na busca do bem comum. A vida moderna desperta nos jovens o niilismo e uma aceitação da ausência de significado inerente, mas este deve ser o ponto de partida em direção a verdadeira mudança.

"Os jovens revolucionários transformaram-se em adultos desiludidos, vergados ao status quo e condenados a tornarem-se no que prometeram destruir. "

Ecos do Passado

É possível comparar os movimentos do final dos anos 60 e início dos anos 70 nos Estados Unidos da América com o ativismo e o idealismo dos jovens de hoje. Os “hippies” e o movimento counterculture da época desafiaram normas societais e fizeram soar bem alto o clamor da reivindicação dos direitos civis, da igualdade de género, do anticonsumismo e do fim da guerra no Vietname pelas ruas.

No entanto, à medida que essa geração foi envelhecendo, alguns adotaram ideologias mais conservadoras e aderiram a aspetos do sistema a que antes se opunham veementemente. O idealismo que outrora alimentou a sua sede de mudança deu lugar à derrota e o pêndulo da sociedade oscilou novamente. Os jovens revolucionários transformaram-se em adultos desiludidos, vergados ao status quo e condenados a tornarem-se no que prometeram destruir.

O seu grito desvanecido por um mundo mais justo reflete o potencial dormente que testemunhamos agora na Geração Z, e que ecoará para sempre como um conto cautelar, uma amostra daquilo em que sem dúvida nos tornaremos, se desistirmos da mesma forma. Por quanto mais tempo conseguiremos aguentar este perpétuo estado de quase-rutura, que não se cristaliza ou desenvolve? A panela fervilha, as tensões aumentam, todos nós reconhecemos a insustentabilidade deste estado e avistamos a tempestade que se aproxima, mas, ano após ano, nada acontece. Acomodamo-nos e acobardamo-nos – escolhemos continuar a acreditar que tudo se resolverá sem a nossa intervenção.

Temos ao nosso alcance ferramentas e recursos mobilizadores como nunca existiram. A nossa atual capacidade para divulgar uma ideia, propagá-la globalmente e incitar à união é inigualável a qualquer outro ponto da História. Uma conceção niilista da realidade pode servir como o motor ideal para a desconstrução das noções de propósito até agora estabelecidas.


Conclusão

Os nossos olhos foram abertos aos atributos desapontantes da sociedade moderna, de um sistema que demasiadas vezes valoriza o lucro em detrimento de todos e de tudo o resto. Aquisições materiais e feitos individuais falharam em proporcionar a muitos jovens um sentido de propósito e significado com que genuinamente se identificassem.

Mas o nosso descontentamento não tem de se tornar uma derrota. Finalmente encontramo-nos perante a mesma bifurcação no caminho que todas as gerações anteriores enfrentaram. Confrontados com uma existência absurda, é tempo de escolher – soa o alarme para agirmos e assumirmos responsabilidade pelo nosso futuro coletivo. Que se dê a rebelião contra a complacência e o fervor fugaz de quem já cá esteve. Comprometamo-nos a fazer desta uma luta perpétua por criar e nutrir um propósito que ultrapassa o “eu”.




Referências Bibliográficas


Camus, A. (1951). The Rebel. https://theanarchistlibrary.org/library/albert-camus-the-rebel — [tradução livre].


Carnegie, M. (2022, August). Gen Z: How young people are changing activism. BBC. https://www.bbc.com/worklife/article/20220803-gen-z-how-young-people-are-changing-activism


Coombs, C. (2022, May 4). Explaining Gen Z’s unsurprising adoption of nihilism. Thred. https://thred.com/culture/offbeat/understanding-gen-zs-expected-uptake-in-nihilism/


Frankl, V. E. (1946). Man’s Search for Meaning. Washington Square Press.


Hickman, C., Marks, E., Pihkala, P., Clayton, S., Lewandowski, R. E., Mayall, E. E., Wray, B., Mellor, C., & Susteren, L. van. (2021). Climate anxiety in children and young people and their beliefs about government responses to climate change: A global survey. The Lancet Planetary Health, 5(12), e863–e873. https://doi.org/10.1016/S2542-5196(21)00278-3


Nguyen, T. (2022, April 11). Gen Z does not dream of labor. Vox. https://www.vox.com/the-highlight/22977663/gen-z-antiwork-capitalism



 

Sobre a autora:



Inês Pinto, 21 anos.

Licenciada em Relações Internacionais, a trabalhar para poder estudar para poder trabalhar.

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